Computação quântica: workshop na FGV debate o potencial da tecnologia no mundo dos negócios

O evento - uma realização da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e apoio da Inovativos, Itaú, Bradesco, IBM e ITA – teve o objetivo de realizar uma imersão no universo da computação quântica e explorar como essa tecnologia pode revolucionar a economia digital e o mundo dos negócios

Apontada por diversos estudos como uma das principais tendências tecnológicas para este ano, a computação quântica já é objeto de estudo para organizações de diversos setores. No mercado financeiro, a tecnologia avança a passos largos – aumentando a capacidade dos bancos de resolver problemas que na computação clássica são impossíveis de serem resolvidos –, o que abre um leque de novas possibilidades.

Com o objetivo de realizar uma imersão no universo da computação quântica e explorar como essa tecnologia pode revolucionar a economia digital e o mundo dos negócios, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) – com apoio da Inovativos, Itaú, Bradesco, IBM e ITA – promoveu o ‘Workshop de Computação Quântica da FGV: Desvendando o Futuro dos Negócios’. O evento aconteceu presencialmente no Salão Nobre da FGV e foi transmitido através do canal da instituição no YouTube.

Abertura institucional

Na abertura oficial do evento, o professor Cláudio Larieira, da FGV EAESP (Escola de Administração de Empresas de São Paulo), deu as boas-vindas a todos, agradeceu a presença dos participantes e apresentou a programação do workshop. “É muito interessante ver o que os maiores bancos do Brasil estão fazendo em termos de computação quântica”, afirmou Larieira.

Representando o Departamento de Tecnologia e Data Science (TDS), João Becker, professor titular do TDS da FGV EAESP, ressaltou a importância da temática para as organizações como um todo.

“As inovações disruptivas afetam a vida das empresas. Durante muito tempo, as organizações se acostumaram com a famosa Lei de Moore, que serviu e ainda serve de base para planejamentos de médio e longo prazos. No entanto, começa-se a perceber que talvez não seja mais apropriado confiar, num horizonte de cinco a dez anos, que as projeções desta lei possam realmente orientar as empresas. Daí o interesse em olhar para essas novas tecnologias de computação, entre elas a computação quântica”, destacou Becker.

A computação quântica e a transformação digital

Em seguida, o professor Rodrigo Togneri, do TDS da FGV EAESP, falou sobre o papel da computação quântica na transformação digital. “Tem um papel fundamental, que pode disparar uma série de gatilhos. A computação quântica é um assunto que já está presente dentro das organizações, justamente pelos impactos que as empresas já estão percebendo nos negócios, seja em questões de cibersegurança, seja na questão de destravar o potencial da inteligência artificial, além de outros temas”.

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Antes de entrar propriamente na temática do painel, Togneri agradeceu todos os apoiadores do evento. “Aproveito a ocasião para anunciar uma parceria nova com a Inovativos, um ecossistema completo de troca de informação, principalmente na camada de C-level e alta gestão de empresas de tecnologia. Temos ali produção de conteúdo, eventos, estudos, além do Innovation Xperience Conference, um dos maiores eventos de tecnologia e inovação do Brasil. Também temos uma parceria específica com o Prêmio Inovativos, em que as empresas inscrevem seus projetos de inovação, que são posteriormente avaliados”, contou.

Durante sua palestra, Togneri explicou que tecnologias como metaverso, NFTs, criptoeconomia, entre outras, “ainda não aconteceram” porque falta poder computacional na ponta, principalmente no mobile, para habilitar a transformação digital. “Assim, a nossa grande esperança está na computação quântica, já que a computação tradicional tal qual conhecemos tem um limite muito claro”.

Com a computação quântica, continuou Togneri, por ter um poder de cálculos paralelos muito mais rápido, é possível revolver uma série de problemas num tempo muito menor, trazendo implicações para a computação gráfica, para a IA e para a criptografia. “A computação quântica pode ser um dos principais drivers para a habilitação da transformação digital”, apontou.

Desafio de software

O professor Gustavo Mirapalheta, da FGV EAESP, continuou o workshop explicando conceitos técnicos da computação quântica, uma tecnologia que utiliza as leis da mecânica quântica para resolver problemas complexos.

Os computadores quânticos aproveitam o comportamento da física quântica – como superposição, emaranhamento e interferência quântica – e aplicam-no à computação. “A computação quântica é muito mais um desafio de software do que de hardware e a revolução que se espera poderá ser constituída de uma nova Lei de Moore, desde que consigamos fazer software, ou seja, encontrar problemas que sejam resolvidos num menor número de operações”, afirmou.

Protagonismo e pioneirismo

A IBM investe na computação quântica desde 2016 e é pioneira dentro dessa tecnologia. Em 2019, a empresa lançou o primeiro computador quântico do mundo de uso comercial e, no ano passado, lançou um novo chip que melhora a qualidade dos cálculos e reduz a taxa de erro, permitindo realizar operações mais complexas, além de uma nova arquitetura chamada IBM Quantum System 2, que permite construir sistemas muito grandes em módulos.

De acordo com Ana Paula Appel, AI Engineer na IBM, este ano a empresa continuará trabalhando no aprimoramento e desenvolvimento de software e em mecanismos de correções de erros. “Para 2026 temos uma meta de completa correção de erros e para 2033 um supercomputador quântico com mais de 100 mil qubits”.

Quanto aos casos de uso de computadores quânticos da IBM, Ana Paula apontou empresas como Cleveland Clinic, Woodside, Exon Mobile, Boeing, Força Aérea Americana, Universidade do Arizona, Bosch, JPMorgan, além do Bradesco e Itaú. “Com a computação quântica, a ideia é que os líderes de indústrias façam parte dessa rede de parceiros confiáveis da IBM para transformar e trazer essa tecnologia para a realidade”, frisou.

Computação quântica no mercado financeiro – case Itaú

Um dos setores que já explora as possibilidades da computação quântica é o financeiro. De acordo com Samuraí Brito, head of Quantum Technologies do Itaú-Unibanco, o Itaú começou a olhar para a computação quântica em 2019, “entendendo o mercado, vendo o que as empresas estavam fazendo, conversando com as universidades”. No ano seguinte, o Itaú resolveu montar uma equipe multidisciplinar para descobrir potenciais casos de usos dentro do banco que pudessem ser explorados com computação quântica.

No ano passado, o Itaú começou efetivamente a explorar a tecnologia. Atualmente, segundo Samuraí, já são seis casos de uso explorados. “Em alguns deles, já conseguimos mapear os benefícios da computação quântica, enquanto que em outros entendemos que a tecnologia não trará ganhos significativos ou vantagens competitivas. Queremos inovar, mas levando-se em consideração as necessidades dos nossos clientes, antecipando suas dores e entregando soluções encantadoras”.

Samuraí destacou ainda que todas as áreas do Itaú já receberam algum treinamento a respeito do que é computação quântica, o potencial e os riscos da tecnologia, para que todos entendam as oportunidades de experimentação.

Um dos principais cases implantados pelo Itaú analisou a evasão e a retenção de clientes, com o objetivo de melhorar a performance e a eficiência. Por meio de machine learning, o Itaú criou um modelo de aprendizado de máquina quântico para verificar se conseguiria aumentar o potencial de prever os clientes mais propensos a evadir. O resultado, após a construção de um novo algoritmo, aumentou o potencial de retenção em 2%.

Criptografia pós-quântica – case Bradesco

No ano passado, o Bradesco ampliou sua parceria com a IBM para explorar a criptografia pós-quântica. Trata-se de novos tipos de algoritmos criptográficos que podem ser implementados em computadores clássicos, sistemas operacionais, navegadores e aplicativos em geral, celulares e equipamentos de hardware, para proteção contra possíveis “ataques quânticos”.

“A criptografia pós-quântica traz uma série de oportunidades, como melhorias na segurança de dados, modernização da infraestrutura, além de inventários de artefatos criptográficos”, explicou Luciano Carolino, especialista em segurança de TI do Bradesco.

No entanto, continuou o especialista, há desafios como o tempo de transição (identificar e substituir tecnologias afetadas pode levar um tempo longo), custo e complexidade do ambiente, profissionais especializados e estratégia de migração (mercado ainda não definiu qual a melhor estratégia a seguir).

Segundo o especialista em computação quântica do Bradesco, Jonatas Rossetti, a tecnologia, na indústria financeira, tem potencial para aumentar a velocidade de processamento de dados, obter ganhos de escala e modelos mais precisos, além de aumentar a eficiência operacional.

“Temos investigado a utilização da computação quântica na detecção de fraudes, alocação de capital e gerenciamento de risco, otimização e diversificação de portfólios, além da precificação de derivativos e análise de riscos, entre outras aplicações”, contou Rossetti. “Isso tudo por meio de pesquisas, experimentos, parcerias e treinamentos de funcionários”.

Popularização com responsabilidade

Finalizando o workshop, o físico e matemático Luiz Augusto, pesquisador de Computação Quântica do ITA, defendeu que é preciso popularizar a computação quântica para que as indústrias possam absorver a tecnologia.

“A popularização é importante, mas deve ser feita com muita responsabilidade. Temos ótimos exemplos de empresas no Brasil com importantes trabalhos na área, com credibilidade. Nesse mercado de euforia, credibilidade faz a diferença”, concluiu.

Confira o workshop na íntegra:

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