iXC: O Brasil tem sede de inovação, segundo Ronaldo Lemos

Inovação

Em um curto período, testemunhamos uma série de transformações, não apenas nos negócios, mas nos hábitos de consumo, na forma como compramos, nos relacionamos, entre outras coisas. Foi para debater essa nova era que Vitor Magnani, presidente da Associação Brasileira Online to offline (ABO2O) e do Conselho de Comércio Eletrônico da FecomercioSP, e Ronaldo Lemos, advogado especialista em dados, tecnologia e propriedade intelectual, sócio do escritório Rennó Penteado Sampaio Advogados e apresentador do programa “Expresso Futuro”, se reuniram em um talk show na Innovation Xperience Conference, realizada nos dias 16, 17 e 18 de novembro de 2021.

 

Vitor Magnani“Falamos da 4ª Revolução Industrial sendo que nem passamos pela 3ª propriamente dita. A 3ª Revolução Industrial, segundo alguns teóricos indicam, é essa jornada de digitalização”, pontuou Vitor. Ele pontuou o quanto o mundo, incluindo o Brasil, se digitalizou nesses últimos anos com a pandemia, com os negócios migrando para os ambientes online, as pessoas trabalhando de casa, as relações se transformando. “Algumas estimativas davam conta que apenas 5% de todo o varejo brasileira estava digitalizado. Vamos chegar no fim de 2021 com 11% de penetração. A gente está no minuto 1 do 1º tempo dessa digitalização”, disse.

 

“Algumas estimativas davam conta que apenas 5% de todo o varejo brasileira estava digitalizado. Vamos chegar no fim de 2021 com 11% de penetração. A gente está no minuto 1 do 1º tempo dessa digitalização”

 

“A mudança é palpável para todo mundo”, enfatizou Ronaldo. Ele lembrou que a A Folha de S. Paulo, jornal o qual é colunista, publicou uma pesquisa recente sobre penetração do comércio eletrônico no Brasil, que chegou a 12% em alguns momentos, teve picos de 14%. “É um avanço muito considerável”, destacou. Mas quando a pandemia começou, Ronaldo escreveu um artigo comparando o que aconteceu na China, em outras situações que levaram o país asiático a acelerar o comercio eletrônico e os serviços online to offline, com o Brasil.

 

“O que está ocorrendo no Brasil é que houve uma aceleração medida em números. A questão do home office também teve picos no país, mas é importante lembrar que o Brasil tem deficiência de infraestrutura e a nossa participação na economia do conhecimento é limitada”, explicou. Segundo ele, mesmo no auge do trabalho remoto, o percentual da população que conseguiu trabalhar nessa modalidade foi muito pequeno, em torno de 14% no pico, dependendo da região. “Ainda assim é muita gente e é uma modalidade de trabalho que veio para ficar”.

 

“É importante lembrar que o Brasil tem deficiência de infraestrutura e a nossa participação na economia do conhecimento é limitada”

 

Enquanto muitas pessoas dizem que, no home office, você trabalha sozinho, Lemos gosta de falar que você trabalha em rede. “É uma nova forma de trabalhar, que demanda novas habilidades, infraestrutura para gerenciar arquivos, gerenciar pessoas, etc.”, explicou. Na visão dele, esse modelo não deve continuar 100%, mas os aprendizados continuam. Ele acredita que muitos adotarão o formato híbrido e teremos ainda uma aceleração do que foi conquistado pelo comércio eletrônico. “Não tem marcha ré. O que avançou nesse período não tem volta, as conquistas continuam”.

 

“Não tem marcha ré. O que avançou nesse período não tem volta, as conquistas continuam”

 

“Sem contar a inclusão financeira que, mesmo de maneira precária, ajudou uma parcela da população que não tinha sequer uma conta bancária”, ressaltou Vitor. Ele enfatizou que, apesar da tecnologia já estar disponível, muitos continuaram sem acesso. “Não podemos nos orgulhar da inclusão financeira do jeito que foi”, frisou. Segundo Vitor, o Brasil tem muitas especificidades e desafios que precisam ser superados no que diz respeito à conectividade em determinados locais.

 

“Não podemos nos orgulhar da inclusão financeira do jeito que foi”

 

Vitor lembrou que o país precisará implantar o dobro de antenas para a adesão ao 5G. Além disso, ainda há uma série de restrições referentes às instalações delas próximas de escolas, praças, hospitais, sob a alegação de que elas podem comprometer a saúde das pessoas. “Sem superar esses desafios vai ser difícil chegar em patamares chineses. Os números de e-commerce lá são em torno de 60% de penetração. São milhões de comerciantes e prestadores de serviços usando essas ferramentas”.

 

Em 2019, antes da pandemia, Ronaldo ficou um tempo na China gravando programas para o Expresso Futuro. Na ocasião, levou muitos empreendedores e empresários brasileiros para visitar o ecossistema tecnológico chinês. “Foi muito interessante acompanhar o resultado dessa exposição ao ecossistema chinês. Pelo menos três empresas surgiram no período dessas viagens”, relembrou.

 

O resultado, segundo ele, é bem claro. “Tem coisas a serem aprendidas com o ecossistema tecnológico chinês, israelense, americano, indiano. Toda vez que você leva um grupo para fazer mergulho profundo no mercado internacional, há uma geração como essa”. “Nós temos que aprender com esses ecossistemas. Não pode perder tempo. Se tiver um modelo de negócio que se encaixe no Brasil, temos que ir atrás. Temos que avançar o empreendedorismo no país tendo em vista o que deu certo ou não em outros ecossistemas”, destacou.

 

“Temos que avançar o empreendedorismo no país tendo em vista o que deu certo ou não em outros ecossistemas”

 

Também inserido no mercado acadêmico, Vitor comentou que tem se deparado cada vez mais com jovens que querem empreender. “Antes o sonho era estudar e trabalhar numa empresa de grande porte e hoje a garotada quer empreender. Isso é positivo para intensificar o número de startups no Brasil”, disse. Em contrapartida, ele disse que as empresas precisam lidar com um cenário desafiador em vários sentidos que ajudam com o número elevado de mortalidade das organizações: em cinco anos, 75% delas fecham as portas.

 

RonaldolemosRonaldo concordou e afirmou que, de fato, o Brasil está em um momento de ebulição em relação ao empreendedorismo de inovação. Disse que tem um fluxo importante de capital entrando, ainda que pequeno comparado a outros países, com potencial de crescimento. “O Brasil tem uma sede de inovação muito grande em várias áreas e serviços que não são adequados para a dimensão do país”. Na visão dele, o momento é promissor, mas para que isso seja impulsionado, é preciso entender o ambiente em que o empreendedorismo opera.

 

“O Brasil tem uma sede de inovação muito grande em várias áreas e serviços que não são adequados para a dimensão do país”

 

Para Ronaldo, ainda falta muita coisa, como infraestrutura para todos e acesso ao conhecimento. Além disso, o tipo de empreendedor ainda é muito heterogêneo no Brasil. É o perfil masculino, branco, do eixo Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais. “Para que o país se desenvolva para valer, a gente precisa que a participação na economia do conhecimento esteja disponível para todos. Não pode ficar concentrada em um determinado segmento, até porque você perde muitas oportunidades de prover serviços para a maioria absoluta da população. E tem muita ideia boa fora desses circuitos tradicionais”, explicou.

 

“Para que o país se desenvolva para valer, a gente precisa que a participação na economia do conhecimento esteja disponível para todos. Não pode ficar concentrada em um determinado segmento, até porque você perde muitas oportunidades de prover serviços para a maioria absoluta da população. E tem muita ideia boa fora desses circuitos tradicionais”

 

Vitor ressaltou que, mesmo diante de tantos desafios, algumas iniciativas têm tentado alavancar essa agenda de inovação no País, dentre elas, o Plano Nacional de Internet das Coisas, da Lei Geral de Proteção de Dados, entre outros programas que estão sendo construídos. No entanto, Ronaldo considera que, mais importante que ter esses programas, é saber aonde o país quer chegar.

 

“Nem um vento ajuda quem não sabe a qual porto veleja. A tecnologia traz oportunidades e desafios, mas se você não se planeja para aproveitar as oportunidades, fica apenas com os desafios”, pontuou. A LGPD, segundo ele, é exemplo. Ela existe para permitir que o dado circule, não para trancá-lo num cofre e torná-lo inacessível. “Uma vez que você acessa a lei, tem que ter a liberdade para inovar. Qual a política nacional de dados? Como o dado pode gerar valor e desenvolvimento para o país, novas eficiências? Agora é hora de pensar aonde queremos chegar”, finalizou.

 

“Nem um vento ajuda quem não sabe a qual porto veleja. A tecnologia traz oportunidades e desafios, mas se você não se planeja para aproveitar as oportunidades, fica apenas com os desafios”

 

Assista abaixo ao talk show na íntegra ou escute o SpotifyPodcast aqui.

 

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