Faltam desenvolvedores de modelos similares ao ChatGPT no Brasil

A conclusão é de André Gildin, vice-presidente ABRIA, associação de desenvolvedores de IA, em entrevista à Inovativos. Por outro lado, o Brasil está se tornando um ambiente fértil para o treinamento da tecnologia

Na era digital, a inteligência artificial (IA) se destaca como uma das tecnologias mais transformadoras, permeando diversos setores com inovações que revolucionam a maneira como as empresas operam. Considerada uma das inovações que evoluiu e se desenvolveu mais rapidamente na história do mundo conectado, a IA já é utilizada por 41% das empresas brasileiras de alguma forma, como aponta pesquisa global da IBM.

De acordo com profissionais de Tecnologia da Informação (TI) das companhias entrevistadas pelo estudo, os setores em que mais se empregam a IA são: segurança/ameaças (44%); conversação (30%); marketing e vendas (30%); e automatização de processos (30%). Esses números, de forma geral, batem com a análise de André Gildin, vice-presidente de Estratégia da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (ABRIA).

Durante conversa com a Inovativos, André abordou o panorama da IA nos diversos setores produtivos brasileiros. Confira a entrevista:

André Gildin

Inovativos – Na sua avaliação, quais são as áreas de negócio em que a inteligência artificial é empregada com mais solidez?

André Gildin – Naturalmente, a IA passou a ser muito utilizada no atendimento ao cliente como uma evolução dos bots, com uma qualidade maior nas respostas. Uma segunda área de negócios em que a IA é amplamente empregada é a de marketing e vendas, especificamente para a qualificação de leads. Isso porque a tecnologia permite a composição de diversos parâmetros e variáveis, o que representa uma evolução da big data. Essa análise gerada pela IA pode ser transformada em um algoritmo de aprendizado, permitindo a combinação de diferentes tipos de dados, como imagens, textos, entre outros, o que é especialmente útil ao marketing, área em que a IA ainda se desdobra em outras funções como a produção de conteúdo.

Um avanço considerável do uso da tecnologia também tem sido observado na área financeira, especialmente com algoritmos de predição e prevenção de fraudes e de análise de investimentos. Esses são os setores em que observamos um maior avanço no emprego da tecnologia, porém, é importante destacar outras áreas em que a IA se faz útil. É o caso da saúde, por exemplo, na qual a tecnologia se desenvolveu muito durante a pandemia para analisar e qualificar doenças.

A IA generativa, em especial, também tem se expandido bastante em todas as áreas. Do ponto de vista de valor agregado, áreas que exigem muita capacidade humana e analítica podem se beneficiar de vantagens como o aumento na eficiência e produtividade e até mesmo de receita por permitir qualificar melhor os leads de uma companhia, por exemplo.

Inovativos – Qual é a posição do Brasil no avanço da IA? Estamos avançando mais ou menos que a média global em termos de empresas que utilizam a tecnologia como matéria-prima?

André – Do ponto de vista da posição da IA no Brasil, temos avançado bastante, mas ainda aquém da velocidade global. Isso se deve, principalmente, porque não temos grandes desenvolvedores de modelos de linguagem de grande escala (LLMs) brasileiros. A maior parte dos investimentos nesse sentido fica com as big techs dos Estados Unidos e da China. Apesar dessa realidade, estamos muito bem posicionados no treinamento dos modelos de linguagem, ou seja, a IA generativa específica para determinados setores ou aplicações.

Outra característica do Brasil é que o nosso país tem uma grande diversidade de dados públicos e privados acessíveis e gratuitos. Tomando os devidos cuidados com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e com a proteção do consumidor, temos muito potencial para desenvolver diferentes aplicações específicas em algoritmos e treinamento de modelos.

Inovativos – Quais são os principais desafios enfrentados pelas empresas brasileiras ao implementar soluções de IA?

André – Os desafios da IA no Brasil começam nos aspectos político e regulatório. Estamos no meio da campanha do PL-2338, da votação do Marco Regulatório da Inteligência Artificial no Brasil, um marco que vai definir o presente e o futuro da regulação e desenvolvimento da IA no país. Assim, o primeiro desafio é acertar essa regulação, fazer com que as entidades públicas e privadas se conversem para termos uma melhor definição do próprio conceito de IA e melhorar as diretrizes do desenvolvimento da tecnologia no Brasil.

O segundo grande desafio é o da infraestrutura. Para rodar modelos preditivos e modelos de treinamento de inteligência artificial, precisamos de uma capacidade de infraestrutura muito grande. Ainda temos uma dificuldade em ter infraestrutura boa e acessível no Brasil. A nossa infraestrutura de rede 5G ainda é muito restrita e estamos aquém em utilidades como Internet das Coisas, Indústria 4.0, atendimento hospitalar, entre outros pontos.

Também precisamos fomentar e facilitar o desenvolvimento de tecnologias e aplicações, com o investimento em startups, assim como o uso de inteligência artificial por empresas brasileiras. O último ponto é a educação. Temos uma jornada longa pela frente. Já existem diversas entidades, como a própria ABRIA, que divulgam a tecnologia e promovem imersões de IA. Mas isso ainda é a ponta do iceberg. Precisamos capacitar as pessoas em termos de negócios do ponto de vista técnico.

Inovativos – Falando em futuro, quais são as tendências que você consegue adiantar? Onde a IA, como matéria-prima, deve avançar mais no Brasil, e quais as principais inovações em IA a gente pode esperar?

André – O grande desenvolvimento nos próximos anos será visto no treinamento de modelos de linguagem. Ainda vamos ver muitas aplicações específicas, com treinamentos específicos de modelos muito bem elaborados.

O segundo ponto é o avanço do poder computacional e da computação quântica, com a massificação da infraestrutura e das unidades de processamento gráfico (GPUs). Nesse sentido, vamos ver modelos cada vez mais potentes, o que deve impulsionar a robótica. E muito mais do que a robotização, vamos ter uma melhora significativa da junção da robótica, inteligência artificial, Internet das Coisas e conectividade, principalmente para uso na Indústria 4.0. No futuro, vamos ter uma indústria extremamente conectada e inteligente.

Para o desenvolvimento e aplicação da IA no Brasil, a ABRIA tem trabalhado em três verticais: empresas, tecnologia e políticas públicas. O objetivo é montar um ecossistema de parceria entre startups, empresas e desenvolvedores para a expansão da ferramenta, além de buscar incentivos que possam ajudar no desenvolvimento e massificação do uso da tecnologia. Em paralelo, é fundamental conscientizar o poder público sobre o que está por trás da IA generativa e quais são os pontos principais do marco regulatório, que está em debate no Senado Federal.

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